O auto-re-reconhecimento da mãe atípica
- Luciana Garcia

- 17 de set.
- 6 min de leitura
Atualizado: 13 de out.

Conhece-te a ti mesmo na era digital: o desafio da autenticidade e o Setembro Amarelo
A famosa frase “Conhece-te a ti mesmo”, inscrita no templo de Apolo em Delfos e retomada por Sócrates, continua sendo um dos maiores convites da humanidade: olhar para dentro, reconhecer nossos limites e entender quem realmente somos. Mas como aplicar esse ensinamento em pleno século XXI, quando vivemos mergulhadas nas redes sociais, onde muitas vezes exibimos versões editadas e filtradas de nós mesmas?
Nasce uma mãe, morre uma mulher
Será mesmo que uma versão antiga de nós mesmas morre no momento em que damos à luz a um filho? Para além do puerpério, muitas mulheres se fazem essa pergunta em momentos de crise. A verdade é que a nossa vida está cheia de armadilhas que fazem com que a gente acredite nessa história quando estamos distraídas. Ninguém é a mesma pessoa a vida toda. A gente cresce, muda de ideia, melhora (ok, nem todo mundo!). Então porque é que temos tanta saudades da nossa versão mulher de antes da maternidade?
O desafio do autoconhecimento nas redes sociais
Na era digital, não é raro que as pessoas se tornem fakes de si mesmas, criando um abismo entre a vida real e aquilo que você vê todo santo dia no Instagram. Quando se fala de maternidade atípica então, o desafio só aumenta: a gente compara a nós mesmas e as nossas crias a uma vida fictícia da internet. Isso faz com que, desprevenidamente, a gente abra espaço para questionamentos e dúvidas que abalam a saúde mental de qualquer mãe. Esse cenário torna o autoconhecimento mais urgente — e mais difícil — porque:
Somos constantemente pressionadas a manter uma imagem perfeita;
Confundimos validação externa (curtidas e seguidores) com valor pessoal;
Vivemos em um ambiente de comparação constante, medindo nossa vida pelo recorte editado da vida alheia;
O excesso de estímulos nos afasta do silêncio e da reflexão necessários para olhar para dentro.
Os riscos da performance constante
A cultura da performance nos cobra produtividade, felicidade e sucesso o tempo todo. Isso abre espaço para sentimentos (até legítimos) como tristeza, angústia ou solidão serem vistos como fracasso, e não como parte natural da experiência humana. Isso pode levar a um silenciamento das emoções e a uma desconexão cada vez maior de quem somos de verdade.
Autoconhecimento e Setembro Amarelo
O Setembro Amarelo, campanha de conscientização sobre a importância da saúde mental e da prevenção do suicídio, nos convida a repensar nossa relação conosco mesmos. E sim, vamos abraçar essa campanha por aqui também. Olhe pra você. O autoconhecimento é um caminho poderoso nesse processo, por que:
Ajuda a reconhecer limites e pedir ajuda sem vergonha;
Permite separar quem somos de verdade daquilo que projetamos para agradar;
Reduz a auto exigência e favorece a construção de relações mais autênticas;
Combate a solidão mascarada, escondida atrás de sorrisos e fotos felizes.
Um recorte necessário: a mãe atípica e o “turbilhão do diagnóstico”
“Entre terapias, relatórios e reuniões, me perdi de mim. O auto-re-reconhecimento foi o caminho de volta: redesenhei rotinas, refiz expectativas e recuperei minha voz. Não virei ‘menos mãe’; virei uma mãe que sustenta.” - uma mãe
Quando falamos de autenticidade e saúde mental, precisamos olhar com muito carinho para a nossa vivência na maternidade atípica. Às vezes, já aconteceu tanta coisa que a gente tá até acostumada, e não lembra mais como era antes. Mas existe um acontecimento pontual que causa uma ruptura inequívoca em nossas vidas. Eu chamo esse evento de o turbilhão do diagnóstico. Não dá pra negar, ninguém passa por ele incólume.
O “turbilhão do diagnóstico” — seja de T21, autismo, TDAH, deficiência intelectual, síndromes raras ou outras condições — costuma inaugurar uma fase intensa na vida das mulheres. São cirurgias, laudos, terapias, filas, reuniões escolares, planilhas e decisões importantes.Nesse período, a mãe muitas vezes se vê num papel de “gestora de cuidados” em tempo integral e pode desaparecer de si mesma. É muito comum:
Viver lutos silenciosos (do filho imaginado, da rotina que mudou, da carreira interrompida);
Mergulhar em culpa e hiper vigilância, buscando “acertar” sempre;
Perder o direito ao erro e ao descanso na própria cabeça;
Comparar-se sem piedade com outras famílias (principalmente no feed).
É aqui que o auto-re-reconhecimento — o movimento de “reconhecer-se de novo”, atualizando identidade, limites e propósito — deixa de ser um luxo e se torna uma base de sustentação. Voltar para si não é abandono do filho; é o alicerce para sustentá-lo melhor.
Auto-re-reconhecimento como cuidado ativo
Para a mãe atípica, o auto-re-reconhecimento pode ser organizado em cinco eixos práticos:
Identidade: Quem sou eu para além dos papéis (mãe, cuidadora, profissional)? Quais valores não negocio?
Corpo: Como meu corpo sinaliza a sobrecarga? Quais micro cuidados são possíveis (sono, água, pausa curta, respiração)?
Emoções e voz: O que sinto e não nomeio? Com quem posso falar sem ser julgada?
Limites e redes: O que é meu, o que é do sistema (escola, saúde, etc), o que pode ser delegado? Quem me apoia na prática?
Sentido e futuro possível: O que cabe no agora? Qual é a próxima boa micro decisão?
Esse mapa devolve o protagonismo da mãe e reduz o risco da “performance infinita” — aquela que exaure e não sustenta.
Educação dos filhos: por que a mãe que se reconhece educa melhor
Quando a mãe consegue olhar para si com distanciamento e fazer os desvios de rota necessários para se tornar íntegra, tudo muda.
Modelagem emocional: Crianças aprendem pelo que veem. Uma mãe que se autorregula e nomeia emoções transmite um repertório que apoia a regulação do filho.
Limites claros e gentis: Quando a mãe conhece seus limites, as regras da casa ficam mais estáveis e previsíveis — algo especialmente importante para crianças neurodivergentes, que costumam se beneficiar de rotina e previsibilidade.
Alinhamento de expectativas: Autoconhecimento reduz a comparação e protege a criança da pressão por “performar normalidade”. A mãe passa a celebrar progresso significativo, não apenas métricas sociais.
Co-regulação possível: O cuidado que a mãe tem consigo (pausas, pedir ajuda, dizer “hoje não”) é a ponte para co-regular o filho em crises e transições — do banho à tarefa escolar.
Continuidade de cuidado: Mães que se enxergam não queimam em silêncio. Ao reconhecer sinais de exaustão, buscam suporte e mantêm a constância — que é um dos segredos da aprendizagem.
Insight: voltar para si não “tira tempo do filho”; dá qualidade ao tempo com o filho.
Antídotos à lógica da performance (especialmente nas redes)
Métricas que importam: Substitua likes por indicadores afetivos da sua casa (qualidade do sono, crises reduzidas, uma brincadeira compartilhada).
Narrativa honesta: Autenticidade não é exposição de tudo, mas coerência entre o que se vive e o que se diz.
Comparação com contexto: Cada criança tem um perfil, uma história e um ritmo. Sem contexto, comparação é crueldade.
Silêncios estratégicos: O silêncio não é ausência; é espaço para metabolizar experiências complexas.
Setembro Amarelo e a mãe atípica
A sobrecarga invisível aumenta o risco de isolamento emocional. Sinais de alerta incluem: sensação persistente de inutilidade, exaustão que não melhora com descanso, ideação de morte, perda de interesse por tudo, ausência de rede.Buscar ajuda é ato de amor — consigo e com o filho. Converse com profissionais de saúde e com a sua rede. Se estiver em sofrimento intenso, procure atendimento emergencial ou o CVV (ligue 188, 24h; https://www.cvv.org.br).
Cinco micro práticas de volta para si
Pausa de 3 minutos: expirar mais longo que inspirar.
Pergunta do dia: “O que é possível hoje?”
Inventário rápido: sono, água, alimento, movimento.
Uma alegria pequena agendada (5–10 minutos).
Limite dito em voz alta: “Hoje eu não consigo ir, mas posso quarta.”
Conhecer a si mesma é resistir
Em um mundo que empurra versões editadas e inalcançáveis, conhecer a si mesma é resistir. Para a mãe atípica, é afirmar: “Eu existo para além do cuidado — e é por existir que consigo cuidar.” Neste Setembro Amarelo, fica o convite: pare, respire, escute a si mesma. Autorize pausas. Reivindique limites. Permita-se ser quem você é — sem filtros — para que seu filho também possa ser quem ele é, com dignidade e alegria possível.
Checklist da mãe atípica — educação que nasce do auto-re-reconhecimento
Poucas regras, claras e visíveis na casa
Rotinas com margem de flexibilidade
Expectativas alinhadas ao perfil do seu filho
Linguagem que nomeia emoções sem julgar
Um adulto de confiança para você também se co-regular
Perguntas-chave para reflexão
O que em mim ficou em segundo plano desde o diagnóstico?
Onde eu confundo amor com auto anulação?
Que apoio concreto eu posso pedir esta semana (e para quem)?
Que indicador afetivo me dirá que estamos no caminho (mesmo que lento)?
Autenticidade é cuidado preventivo. Voltar para si é o caminho para sustentar o outro.
Lembre-se sempre de pedir ajuda. Se estiver no Brasil, você pode ligar 188. O serviço é gratuito e funciona 24hs. Ou acesse cvv.org.br




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