Carnaval, infância e acessibilidade: escolha e o direito de existir na festa
- Luciana Garcia

- 26 de jan.
- 4 min de leitura

No imaginário coletivo, o Carnaval aparece como sinônimo de alegria, encontro e celebração. Uma festa popular, democrática, aberta a todas as pessoas. Mas quando olhamos para a infância com deficiência — essa ideia de democracia começa a falhar.
Nem toda criança consegue acessar o Carnaval. E isso não tem relação com falta de vontade, preparo emocional ou adaptação familiar. Tem relação direta com barreiras estruturais, ausência de políticas públicas e uma organização social que ainda escolhe quem pode ocupar o espaço público.
Falar de Carnaval inclusivo exige sair do campo do afeto apenas e entrar, também, no campo do direito. A falta de acessibilidade para corpos com deficiência atravessa a infância e também o carnaval.
Carnaval, acessibilidade e infância: quando a festa não é pensada para todos os corpos
O Carnaval costuma ser defendido como uma manifestação cultural popular, mas popular não significa automaticamente acessível. Ruas sem rampas, calçadas irregulares, multidões sem qualquer organização de fluxo, ausência de áreas reservadas e a inexistência de banheiros com acessibilidade tornam a participação de muitas crianças com deficiência praticamente inviável.
Crianças que utilizam cadeira de rodas, que têm mobilidade reduzida ou que são ostomizadas enfrentam obstáculos concretos para permanecer nesses espaços com dignidade. Quando a única opção são banheiros químicos, sujos, apertados e inadequados, a mensagem é clara: esses corpos não foram considerados no planejamento da festa.
É preciso nomear isso sem rodeios. Quando uma criança não consegue frequentar um bloco ou evento carnavalesco por falta de acessibilidade, não estamos falando de adaptação individual. Estamos falando de exclusão estrutural.
Uma parte da infância dessa criança é roubada pela falta de acessibilidade (e numa das festas que a maior expressão da cultura brasileira).
Deficiência não é sinônimo de limite sensorial
Outro erro recorrente quando se fala de Carnaval e deficiência é a generalização. Existe uma tendência a associar automaticamente deficiência a desconforto com barulho, multidão e estímulos intensos.
A realidade é muito mais diversa.
Algumas crianças atípicas, especialmente aquelas com maior sensibilidade sensorial, podem, sim, vivenciar o Carnaval como um ambiente hostil. Para elas, o excesso de sons, pessoas, cheiros e mudanças de rotina pode gerar sobrecarga emocional e física. Mas e as outras pessoas com deficiência? Será que elas não têm direito a frequentar a festa, ou é a falta de acessibilidade que as mantém à margem?
Nem toda criança com deficiência vive essa experiência da mesma forma.
Muitas crianças com síndrome de Down, por exemplo, gostam de música alta, movimento, interação social e ambientes festivos. Para essas crianças, o problema não é o Carnaval em si, mas a falta de condições para que elas possam estar ali com segurança, conforto e autonomia.
Inclusão não pode ser construída a partir de estereótipos. Ela precisa partir do reconhecimento de que as deficiências são plurais, assim como as infâncias.
Inclusão não é obrigar — é garantir escolha real
Existe uma diferença fundamental entre respeitar limites e restringir direitos.
Inclusão não é obrigar uma criança a permanecer em um espaço que a machuca emocional ou fisicamente. Mas também não é impedir sua participação por falta de acesso, estrutura ou acolhimento.
A verdadeira inclusão acontece quando há escolha real. Quando a criança pode participar porque quer — e quando também pode não participar sem que isso seja visto como falha, incapacidade ou falta de estímulo.
O problema é que, para muitas famílias atípicas, essa escolha sequer existe. Não porque a criança não quer, mas porque o espaço público não oferece condições mínimas para sua permanência.
Carnaval inclusivo exige política pública
Falar de Carnaval inclusivo para a infância não é apenas falar de empatia individual ou boa vontade das famílias, é falar de acessibilidade como regra básica. É falar de responsabilidade coletiva e poder público.
Eventos financiados com dinheiro público precisam garantir:
Acessibilidade urbana real
Banheiros acessíveis e higienizados
Áreas de respiro e descanso
Organização de fluxo que considere pessoas com mobilidade reduzida
Comunicação clara e antecipada sobre estrutura e acessos
Sem isso, a ideia de festa democrática se sustenta apenas no discurso.
O papel das famílias e dos adultos aliados
Enquanto o acesso não é garantido, muitas famílias seguem criando estratégias individuais para que seus filhos possam viver experiências possíveis — seja ficando menos tempo, escolhendo horários alternativos ou celebrando de outras formas.
Essas soluções são válidas e necessárias no cotidiano, mas não podem substituir a cobrança por mudanças estruturais.
O papel dos adultos não é apenas adaptar a criança ao mundo como ele é, mas também questionar por que o mundo continua sendo organizado para excluir determinados corpos.
Celebrar a infância também é lutar por pertencimento
Nem toda criança vai querer ir ao bloco. Nem toda criança vai se sentir confortável em uma multidão. E tudo bem.
Mas toda criança deveria ter o direito de decidir isso a partir de um lugar de acesso, dignidade e pertencimento. A acessibilidade nos espaços públicos é um dever do estado.
Um Carnaval verdadeiramente inclusivo não é aquele em que todas as crianças participam da mesma forma, mas aquele em que nenhuma é excluída antes mesmo de poder escolher.
créditos:
Por Luciana Garcia
Jornalista, palestrante e especialista em culturas inclusivas. Fundadora do movimento Maternidade Atípica, que atua pela conscientização sobre deficiência, maternidade e equidade social. lucianagarcia.com.br




Ô abre-alas, que todos querem passar! Parabéns Luciana pela sua sensibilidade em pautar uma comemoração tão do povo, mas não para todos. O poder público precisa e deve dar atenção. A festa é diversa. Texto irretocável.