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Economia do Cuidado na Maternidade Atípica: o trabalho invisível que sustenta o mundo e esgota milhões de mães

  • Foto do escritor: Luciana Garcia
    Luciana Garcia
  • há 17 horas
  • 6 min de leitura
Mão adulta segura dedo de uma criança em fundo desfocado. Logo com texto "maternidade atípica" à esquerda. Transmite carinho e proteção.


A rotina da maioria das mulheres no Brasil começa antes do sol nascer. Elas preparam o almoço, controlam medicações, roupas, despensa, levar as crianças para a escola. E aí então vão "trabalhar". Como se o trabalho ainda não tivesse começado, ou tivesse parado em algum momento.


Essa a rotina exaustiva de milhões de mulheres no Brasil e no mundo, tem nome e sobrenome: Economia do Cuidado. Um trabalho invisível que ajuda a roda do capitalismo a girar sem remuneração, férias ou direito à aposentadoria. A indústria do cuidado é um setor da economia mundial que tem gênero, tem cor e tem classe.


A mulher que geralmente ocupa essa função nos núcleos familiares é geralmente mãe, geralmente preta e inevitavelmente pobre. E há ainda uma outra dobra que torna esse trabalho invisível ainda mais desafiador: a maternidade atípica. A mãe atípica é uma mulher cujo filho (ou filhos) tem alguma deficiência, síndrome genética, doença crônica, autismo, TDAH ou outra condição que exige cuidados constantes.


Para essa mulher, o cansaço se torna um estilo de vida e o trabalho invisível quintuplica. A sobrecarga da maternidade atípica geralmente vem acompanhada com frases bonitas e encorajadoras que têm por única finalidade deixar tudo como está.


"Mulher guerreira", "escolhida por Deus", "pessoa com uma missão especial" - quem recita essas frases geralmente não para pra pensar no quanto vale, em dinheiro, todo esse cuidado.


Estamos falando de trilhões de dólares em todo mundo. Um dinheiro que circula pela economia mas que nunca chega nas mãos de quem realiza o trabalho grosso, braçal, exaustivo e complexo. Uma operação gigantesca que simplesmente não aparece nas estatísticas oficiais. É como se uma parte enorme da economia não existisse, ou como se o serviço executado na solidão e no silêncio doméstico brotasse expontaneamente ao raiar do sol.


O que é Economia do Cuidado — e por que isso importa para mães atípicas?


Economia do Cuidado é todo o trabalho necessário para manter a vida funcionando. Ele inclui (mas não se limita a):


  • Cuidar de crianças

  • Cuidar de pessoas com deficiência

  • Cuidar de idosos

  • Cozinhar

  • Limpar

  • Organizar a casa

  • Acompanhar tratamentos


Mas não é só isso. Não dá pra falar de economia do cuidado sem falar em sobrecarga mental. Para entendermos rapidamente o que isso quer dizer, vamos pegar o tópico número 4 da nossa listinha: cozinhar.


O ato de cozinhar não implica no simples fato de misturar e aquecer alimentos em uma panela. Ele requer planejamento antecipado do que se vai preparar, verificar a lista de ingredientes, ir ao mercado comprá-los (o que envolve fazer pesquisa de preço), trazer para casa, armazenar, limpar, picar, compreender a ordem de inserção dos ingredientes na receita, proporções e tempo de cocção de cada alimento. Depois de tudo pronto, resta ainda a pós-produção disso tudo que envolve lavar uma infinidade de artefatos, secar e guardar.


Fazer a comida não é só fazer a comida. Cada tópico que elencamos nessa economia do cuidado diz respeito a uma infinidade de pré-ocupações que muitas vezes cansam mais do que o ato em si.



A sobrecarga mental da mãe atípica


Nas famílias de classe média alta, parte deste trabalho até pode ser pago e terceirizado (babás, cuidadores, professores). Mas "o bruto" é feita dentro de casa, sem salário. E como não poderia deixar de ser, na maternidade atípica, o cuidado não é só “cuidar”. Ele envolve uma série de ações que orbitam no entorno de tópicos como:


  • Gerenciar acompanhamento médico, encaixe de agendas e disponibilidade de profissionais;

  • Controlar medicações, acompanhar eficácia e efeitos colaterais;

  • Levar para múltiplas terapias para o desenvolvimento físico, mental e motor;

  • Entender sobre laudos e fazer escolhas baseadas em muito pouco material de suporte;

  • Resolver burocracias como liberações de farmácia de alto custo, autorizações de exames complexos, etc;

  • Negociar cotidianamente inclusão escolar e lutar pelos direitos da criança;

  • Estudar constantemente sobre a condição do filho e as melhores práticas possíveis;

  • Chega, vou parar por aqui pra não cansar ninguém. Você pegou o espírito da coisa.


É um trabalho técnico. Complexo. Árduo. Contínuo. E quase sempre feito sem reconhecimento.



O preço dessa sobrecarga


As consequências são reais:


  • Esgotamento constante

  • Impacto na carreira

  • Abandono do mercado de trabalho

  • Ansiedade e depressão

  • Isolamento social

  • Aposentadoria comprometida


Muitas mães reduzem jornada, recusam promoções ou saem do emprego porque o sistema não foi feito para quem cuida. E isso tem impacto econômico direto — para a família e para o país.


Os números que ninguém enxerga


Dados que mostram o tamanho dessa realidade:


No mundo


A Organização Internacional do Trabalho estima que, se o trabalho não remunerado fosse pago, ele representaria cerca de US$ 11 trilhões por ano — quase 9% de toda a economia mundial.


A Oxfam calcula que mulheres realizam 12,5 bilhões de horas diárias de trabalho de cuidado não pago.


No Brasil


Estudos da FGV indicam que, se o trabalho doméstico fosse contabilizado, ele poderia aumentar o PIB em cerca de 13%.


Ou seja: existe uma economia inteira funcionando dentro das casas — mas invisível.

Para mães atípicas, essa invisibilidade é ainda maior. Muitas não conseguem trabalhar fora porque o cuidado exige dedicação quase integral.


Antes mesmo de levantar da cama, a cabeça já está funcionando: “Preciso marcar neurologista”. “O remédio está acabando”. “Tem reunião na escola”. “O laudo do BPC precisa atualizar”. “A terapia vence amanhã.” É um looping infinito.


Segundo o IBGE, mulheres dedicam quase o dobro de horas semanais ao cuidado não remunerado do que os homens. Na maternidade atípica, essa diferença costuma ser ainda maior.


Quando o cuidado se multiplica


No Brasil, milhões de crianças têm algum tipo de deficiência ou condição que exige apoio contínuo. Por trás de cada uma delas, existe uma família (ou deveria existir). Isso porque uma pesquisa recente revelou que 78% dos genitores abandonam os filhos após um diagnóstico (Salvatori, 2025) e isso acontece antes mesmo da criança completar 5 anos de idade.



O impacto financeiro da maternidade atípica


Além da sobrecarga, existem os custos extras: terapias particulares (que podem chegar a centenas de reais por sessão), medicamentos de alto custo, equipamentos de tecnologia assistiva, adaptação da casa, do ensino, da alimentação, transporte especializado, etc.


Ao mesmo tempo em que as despesas se tornam mais intensas e que a demanda de cuidado da mãe aumenta, muitas delas ficam sem emprego, precisam diminuir a jornada de trabalho e não tem a menor condição de reorganizar a vida. É uma equação injusta.


Texto em fundo branco: "mais gastos + menos renda = vulnerabilidade financeira". Esquema em vermelho. Logotipo da Maternidade Atípica.



Por que o PIB ignora tudo isso?


O PIB só conta o que passa pelo mercado. Se você paga uma terapia, conta. Se você aplica os exercícios em casa por duas horas todos os dias, não conta.


Se você paga alguém para cozinhar, entra na economia. Se você cozinha todos os dias para atender restrições alimentares do seu filho, vale zero nas estatísticas.


Esse é o paradoxo da Economia do Cuidado.

O sistema trata o cuidado como algo “natural” das mulheres — e não como trabalho.



O que precisa mudar?


1. Dentro de casa: corresponsabilidade real


Não é ajuda. É co-responsabilidade. Pais também precisam assumir: agenda médica, terapias, reuniões escolares, decisões difíceis. Dividir não é apoiar, é exercer a paternidade. Mas como cobrar tudo isso daqueles que abandonam as famílias por não querer lidar com a responsabilidade?



2. Políticas públicas específicas para maternidade atípica


Essa é uma conversa longa, para outros artigos, quem sabe. Precisamos repensar o nosso modelo de educação inclusiva (Portugal tem ótimos resultados nesse sentido), qualificando profissionais de apoio nas escolas, ampliar a oferta de transporte adaptado e pelo menos dobrar o BPC.


É urgente que comecemos a pensar em programs de respiro familiar e capacitação de mães para um novo mercado que consiga absorver as suas demandas. Precisamos também levar centros de diagnóstico e intervenção precoce para os locais mais afastados. Cuidado não é gasto. É investimento social.


3. Empresas mais conscientes


Mães atípicas não são menos profissionais. Pelo contrário. São pessoas altamente treinadas para tomar decisões difíceis em ambientes de pressão, sabem gerenciar o stress com maior facilidade, compreendem a diversidade de ser e agir e tem uma grande capacidade de trabalhar com uma equipe.


Mas é preciso compreender que o seu modelo de trabalho também precisa ser diverso e adaptado para as necessidades de cada uma, com flexibilização de horários, home office sempre que possível, banco de horas, licenças ampliadas e benefícios que considerem filhos com deficiência. Isso não é privilégio, é condição de permanência.




O futuro que queremos


Se não começarmos a olhar agora para a economia do cuidado e o seu impacto brutal na maternidade atípica, jamais conseguiremos qualificar pessoas com deficiência para tantas vagas afirmativas que queremos criar.


Tudo começa na mãe. Se a mulher não tem oportunidade, o futuro do filho está condenado. A maternidade atípica seja reconhecida como parte da estrutura social, não como exceção.


Porque toda sociedade depende de cuidado. A diferença é que algumas famílias precisam de mais apoio. E reconhecer isso não é privilégio, é justiça. A mudança começa quando o invisível passa a ser nomeado. E a Economia do Cuidado precisa deixar de ser invisível — especialmente na maternidade atípica.



créditos:


Por Luciana Garcia

Jornalista, palestrante e especialista em culturas inclusivas. Fundadora do movimento Maternidade Atípica, que atua pela conscientização sobre deficiência, maternidade e equidade social. lucianagarcia.com.br

 
 
 

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